{"id":34435,"date":"2015-09-20T09:29:43","date_gmt":"2015-09-20T07:29:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.revista-portalesmedicos.com\/revista-medica\/?p=34435"},"modified":"2020-11-23T10:29:22","modified_gmt":"2020-11-23T09:29:22","slug":"o-espelho-por-tras-da-danca-movimento-terapia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revista-portalesmedicos.com\/revista-medica\/o-espelho-por-tras-da-danca-movimento-terapia\/","title":{"rendered":"O espelho por tr\u00e1s da dan\u00e7a movimento terapia"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><strong>O espelho por tr\u00e1s da dan\u00e7a movimento terapia<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Dan\u00e7a Movimento Terapia (DMT) foi desenvolvida nos anos 40 com a ambi\u00e7\u00e3o de que atrav\u00e9s da dan\u00e7a e do movimento corporal, o terapeuta acedesse ao \u00edntimo do seu cliente ajudando-o a relacionar as suas emo\u00e7\u00f5es com o seu estado de sa\u00fade presente. Aplicada individualmente ou em grupo, a DMT \u00e9 para todas as pessoas que pretendam melhorar a sua qualidade de vida independentemente da sua idade ou condi\u00e7\u00e3o (f\u00edsica ou mental), sendo as sess\u00f5es estruturadas consoante as caracter\u00edsticas de cada uma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O espelho por tr\u00e1s da dan\u00e7a movimento terapia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) Joana Leal Duarte<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Universidade da Beira Interior, Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas, Departamento de Psicologia e Educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) Luis Alberto C.R. Maia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professor &#8211; Beira Interior University. Clinical Neuropsychologist, PhD (USAL &#8211; Spain). Neuroscientist, MsC (Medicine School of Lisbon &#8211; Portugal). Medico Legal Specialist (Medicine Institute Abel Salazar &#8211; Oporto, Portugal). Graduation in Clinical Neuropsychology (USAL &#8211; Spain). Graduation in Investigative Proficiency on Psychobiology (USAL &#8211; Spain). Clinical Psychologist (Minho University &#8211; Portugal)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RESUMO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das investiga\u00e7\u00f5es realizadas, conv\u00e9m salientar a descoberta da exist\u00eancia dos neur\u00f3nios-espelho que vieram confirmar o que se aplica na DMT aquando da utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica do \u201cEspelhamento\u201d, passando esta fundamentada a partir de uma base neurol\u00f3gica. Apesar de j\u00e1 existirem evid\u00eancias relativamente aos seus benef\u00edcios quando aplicada a diversos quadros cl\u00ednicos (e.g., esquizofrenia, perturba\u00e7\u00f5es de comportamento, Parkinson), os estudos realizados ainda s\u00e3o em n\u00famero restrito. Por conseguinte, torna-se fundamental para a sua dissemina\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia enquanto profiss\u00e3o a realiza\u00e7\u00e3o de novas investiga\u00e7\u00f5es, nomeadamente que a aliem \u00e0 neuropsicologia como prova emp\u00edrica dos seus benef\u00edcios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:<\/strong> DMT, neur\u00f3nios-espelho<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ABSTRACT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dance Movement Therapy (DMT) was developed in the 1940s with the idea that through dance and body movement, the therapist could access the depths of his client subconscious, helping him to relate their emotions with their present health status. Applied individually or in groups, DMT is for all people who wish to improve their quality of life regardless of their age or condition (physical or mental), and the sessions are structured according to the characteristics of each person.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As for the research that has been carried out so far, one should note the discovery of the existence of mirror neurons that can serve to confirm the applications for DMT when using the \u00abMirroring\u00bb technique, thus justifying it from a neurological point. Although there is evidence in relation to its benefits when applied to different medical conditions (eg, schizophrenia, behavioral disorders, Parkinson\u2019s disease), there is still a very limited number of research studies being carried out. Therefore, it is essential for this technique to be spread and acknowledged as a profession and to conduct further research, in particular, one that combines neuropsychology as an empirical proof of its benefits.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:<\/strong> DMT, mirror-neurons<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dan\u00e7a \u00e9 uma das formas de cura mais antigas. Na sua forma original, a dan\u00e7a (bem como o movimento) era uma forma pura de express\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o entre os homens mas, com o passar do tempo, esta forma de arte tornou-se mais r\u00edgida passando a ser vista como uma s\u00famula de passos exigentes (Fischman, 2001; Ritter &amp; Graff, 1996; Rodr\u00edguez, 2009; Vieira, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A DMT surge por volta dos anos 40, como resposta \u00e0 necessidade de recuperar o processo criativo n\u00e3o-verbal da dan\u00e7a enquanto canal de comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o, fundamental para o desenvolvimento da pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acresce ao supramencionado o facto de o movimento come\u00e7ar a ser encarado enquanto \u00fanica via de acesso \u00e0s emo\u00e7\u00f5es, passando consequentemente a postular-se uma interdepend\u00eancia entre corpo e mente (Federman, 2011; Painado &amp; Muzel, 2012; Rodr\u00edguez, 2009; Santana, 2009). Nesta linha, perspetiva-se que o movimento possa gerar altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas que conduzam a um melhor estado de sa\u00fade e a um aumento do desenvolvimento pessoal do cliente sendo este aplicado a qualquer pessoa que ambicione melhorar a sua qualidade de vida, independentemente da sua idade ou quadro cl\u00ednico (Fischman, 2001; Painado &amp; Muzel, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que diz respeito ao processo terap\u00eautico em si, ao longo da sess\u00e3o o cliente move-se enquanto o terapeuta testemunha. Simultaneamente, o mesmo tenta perceber, sem julgar, o que o movimento significa para o cliente, bem como a sua raz\u00e3o de ser, procurando ainda desenvolver a sua empatia de modo a entender o que est\u00e1 a ocorrer no interior do seu cliente (Rodr\u00edguez, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De salientar que a aplica\u00e7\u00e3o psicoterap\u00eautica do movimento, dentro de um processo de conex\u00e3o entre movimento e emo\u00e7\u00e3o, procura a integra\u00e7\u00e3o psicof\u00edsica (corpo-mente) do indiv\u00edduo (Federman, 2011; Painado &amp; Muzel, 2012; Ritter &amp; Graff, 1996; Rodr\u00edguez, 2009; Victoria, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 ambi\u00e7\u00e3o deste artigo dar a conhecer o que \u00e9 a DMT, bem como alguns dos benef\u00edcios da sua aplica\u00e7\u00e3o. Nesta linha, este \u00e9 composto por diversas sec\u00e7\u00f5es, nomeadamente: resenha hist\u00f3ria, racional te\u00f3rico da DMT, prova emp\u00edrica dos seus efeitos, o papel dos neur\u00f3nios-espelho e ainda, a t\u00edtulo de curiosidade, informa\u00e7\u00f5es relativas ao<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">que \u00e9 preciso para se ser um terapeuta de DMT.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RESENHA HIST\u00d3RICA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas palavras de Peto (2000) a dan\u00e7a \u201c\u00c9 uma das raras atividades humanas em que o homem se encontra totalmente engajado &#8211; <em>corpo, esp\u00edrito e cora\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d (p.35). A utiliza\u00e7\u00e3o do movimento do corpo, especialmente ao que se denomina comumente de dan\u00e7a, \u00e9 considerada como uma ferramenta de \u00abcatarse\u00bb e uma forma de cura t\u00e3o antiga quanto a dan\u00e7a em si (Fischman, 2001; Ritter &amp; Graff, 1996; Rodr\u00edguez, 2009; Vieira, 2008). Dado os homens da pr\u00e9-hist\u00f3ria n\u00e3o possu\u00edrem uma comunica\u00e7\u00e3o verbal definida e utilizarem a dan\u00e7a como meio de comunica\u00e7\u00e3o, esta \u00e9 considerada uma das formas mais antigas de express\u00e3o de sentimentos, inten\u00e7\u00f5es e de conv\u00edvio em sociedade (Painado &amp; Muzel, 2012; Peto, 2000; Rodr\u00edguez, 2009;Vieira, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De uma forma natural de manifesta\u00e7\u00e3o do ser humano, a dan\u00e7a persegue um percurso acad\u00e9mico e sistematizado, dando origem a uma forma de arte estruturada e est\u00e9tica que n\u00e3o observa como o movimento pode afetar a pessoa que dan\u00e7a (Fischman, 2001; Painado &amp; Muzel, 2012; Rodr\u00edguez, 2009; Vieira, 2008). A DMT surge assim da necessidade de recuperar o processo criativo n\u00e3o-verbal como um canal de comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o no crescimento da pessoa, assumindo como princ\u00edpio que o corpo e a mente s\u00e3o indissoci\u00e1veis, existindo entre os mesmos uma forte conex\u00e3o (Federman, 2011; Painado &amp; Muzel, 2012; Rodr\u00edguez, 2009; Santana, 2009). Al\u00e9m disso, \u00e9 ainda tido em conta o paralelismo estabelecido entre a sele\u00e7\u00e3o do movimento pela pessoa com as escolhas que faz na sua vida. Deste modo, a DMT trabalha no sentido de ampliar o repert\u00f3rio de movimentos da pessoa, alargando o seu leque de hip\u00f3teses cognitivas e emocionais, bem como incrementando a sua capacidade de adapta\u00e7\u00e3o na vida (Santana, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A g\u00e9nese da DMT \u00e9 devida \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o entre psiquiatras e profissionais da dan\u00e7a moderna por volta dos anos 40 (Rodr\u00edguez, 2011; Santana, 2009). Esta tem como sustenta\u00e7\u00e3o o expressionismo que consiste na curiosidade relativamente \u00e0 dan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 enquanto uma forma de express\u00e3o, como tamb\u00e9m uma forma de alcan\u00e7ar as emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 num hospital psiqui\u00e1trico com doentes cr\u00f3nicos em estado grave e que apenas comunicavam n\u00e3o verbalmente (mais especificamente com doentes esquizofr\u00e9nicos) que, Marian Chace (uma bailarina moderna) utiliza pela primeira vez, em 1942, a DMT enquanto pr\u00e1tica cl\u00ednica (Fischman, 2001; Viegas, 2008). Vista como a \u00abm\u00e3e\u00bb da DMT e focalizando-se na forma\u00e7\u00e3o dos relacionamentos interpessoais, esta desenvolve uma metodologia pr\u00f3pria e considera que \u00abfazendo uso de formas b\u00e1sicas de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-verbal, a Dan\u00e7a Movimento Terapia oferece ao indiv\u00edduo uma forma de se relacionar com o meio ou pessoas com as quais cortou liga\u00e7\u00f5es, pelos padr\u00f5es da sua doen\u00e7a\u00bb (Chace, s.d, cit. in Viegas, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Rodr\u00edguez (2011), o trabalho desenvolvido por Marian Chace pode ser abreviado a quatro aspetos essenciais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) <em>Rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica em movimento:<\/em> terapeuta est\u00e1 envolvido no movimento atrav\u00e9s do espelhamento emp\u00e1tico ou reflex\u00e3o &#8211; terapeuta ocupa o lugar emocional do cliente e tenta dar um sentido ao movimento executado pelo cliente, ajudando-o assim a dar valor \u00e0 sua experi\u00eancia imediata (diferente do que se conhece como m\u00edmica);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) <em>Narra\u00e7\u00e3o verbal:<\/em> utilizada para refletir acerca de determinado processo terap\u00eautico (individual ou em grupo) \u00e0 medida que este decorre;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3) <em>Ritmo:<\/em> via para ordenar a manifesta\u00e7\u00e3o de pensamentos e emo\u00e7\u00f5es;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4) <em>Dan\u00e7a<\/em>: equiparada a uma terapia de grupo, funcionando como meio que fornece a conex\u00e3o grupal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na opini\u00e3o de Santana (2009), o aparecimento da DMT foi facilitado por tr\u00eas acontecimentos hist\u00f3ricos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1<em>) Expressionismo <\/em>(in\u00edcio do s\u00e9culo XX): surge a dan\u00e7a moderna que procurou substituir a rigidez com que se encarava a dan\u00e7a pela espontaneidade, autenticidade e consci\u00eancia corporal;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) <em>Pesquisa em movimento:<\/em> Rudolf Laban produziu um dos primeiros sistemas de anota\u00e7\u00e3o de movimento na sequ\u00eancia de uma profunda observa\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise do mesmo e, juntamente com Warren Lamb, deu origem ao m\u00e9todo de An\u00e1lise do Movimento de Laban (LMA);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3) <em>Origem da psican\u00e1lise:<\/em> que para al\u00e9m de trazer o interesse pela mente e pelo inconsciente, tamb\u00e9m chamou \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para o corpo e para o criativo (e.g., Freud, Jung e Adler) (Fischman, 2001; Santana, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo do desenvolvimento da DMT foram surgindo diferentes abordagens fundamentais para a sua compreens\u00e3o e teoriza\u00e7\u00e3o (Br\u00e4uninger, 2014; Federman, 2011):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira, designada por \u201cChace\u201d, adaptou conceitos utilizados na dan\u00e7a como a a\u00e7\u00e3o do corpo, o simbolismo, a empatia cinest\u00e9sica e a atividade r\u00edtmica grupal, unindo-os numa terapia cujo intuito seria promover a express\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o. De acordo com esta perspetiva, o repert\u00f3rio emocional dos movimentos dos clientes \u00e9 empaticamente espelhado para estabelecer conex\u00f5es emp\u00e1ticas e promover a reflex\u00e3o emp\u00e1tica (\u201cEspelhamento\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda abordagem, a \u201cDan\u00e7a Terapia de Orienta\u00e7\u00e3o Psicodin\u00e2mica\u201d, caracteriza-se por conceitos e teorias psicol\u00f3gicas aprofundados. Esta abordagem \u00e9 baseada na atividade de corpo-mente que integra tanto a improvisa\u00e7\u00e3o do movimento como uma an\u00e1lise psicodin\u00e2mica das experi\u00eancias, tal como se verifica nas rela\u00e7\u00f5es do movimento no grupo. Nesta linha considera-se que, quando aplicada \u00e0 DMT de orienta\u00e7\u00e3o psicodin\u00e2mica, a improvisa\u00e7\u00e3o na dan\u00e7a expressa sentimentos e estados inconscientes (podendo ser equiparada \u00e0 associa\u00e7\u00e3o livre psicanal\u00edtica) e \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o ativa que cont\u00e9m um significado concreto e simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abordagem que se denomina por<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMovimento Aut\u00eantico\u201d define este conceito como sendo o movimento de uma pessoa (= <em>\u201cthe mover\u201d: <\/em>e.g., cliente) na presen\u00e7a de outra (= <em>\u201cthe witness\u201d:<\/em> e.g., terapeuta). Assume-se que este incentiva a express\u00e3o criativa da vida interior, oferecendo assim uma ponte entre o consciente e o inconsciente, explorando a rela\u00e7\u00e3o da pessoa consigo pr\u00f3pria e com os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, a \u201cDan\u00e7a Terapia Integrativa\u201d apresenta como principais componentes o conceito de corpo vivido, composi\u00e7\u00f5es de dan\u00e7a e improvisa\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a. De salientar que todas as abordagens consideram que os processos de transfer\u00eancia e contratransfer\u00eancia n\u00e3o-verbais est\u00e3o presentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Em 1966, foi fundada por Marian Chace a associa\u00e7\u00e3o americana de DMT (ADTA). Esta descreve a DMT <\/em>enquanto uma pr\u00e1tica psicoterap\u00eautica que emprega o movimento como um modo de fomentar a integra\u00e7\u00e3o f\u00edsica e emocional de uma pessoa (Ritter &amp; Graff, 1996; Rodr\u00edguez, 2011; Vieira, 2008). Posteriormente a esta defini\u00e7\u00e3o, a DMT passa a ser considerada como um meio terap\u00eautico, e hoje em dia \u00e9 considerada uma profiss\u00e3o (Koch, Kunz, Lykou, &amp; Cruz, 2014). Apesar disso, a DMT ainda tem um longo caminho a percorrer comparativamente com outras profiss\u00f5es da sa\u00fade mental, tendo ainda uma representa\u00e7\u00e3o reduzida nas institui\u00e7\u00f5es (Wengrower, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RACIONAL TE\u00d3RICO DA DMT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em psicoterapia, a DMT integra o grupo das Artes Criativas simultaneamente com a arte-terapia, musicoterapia e drama-terapia. Esta centra-se na capacidade cinest\u00e9sica (que abrange movimento do corpo, perce\u00e7\u00e3o consciente e equil\u00edbrio) de autoexpress\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-verbal. Deste modo, a DMT apresenta enquanto principal instrumento o corpo e o seu movimento, enquanto forma primordial de cura e autodescoberta (Federman, 2011; Rust-D&#8217;Eye, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na opini\u00e3o de Viegas (2008), a designa\u00e7\u00e3o de DMT deve-se ao que cada palavra comporta individualmente: \u201cDan\u00e7a &#8211; uma outra dimens\u00e3o para a atividade f\u00edsica ligando-a a um campo art\u00edstico, est\u00e9tico, criativo e sublimat\u00f3rio; Movimento &#8211; atividade espont\u00e2nea ou volunt\u00e1ria e designa a motricidade no seu todo e Terapia &#8211; um enquadramento psicodin\u00e2mico e te\u00f3rico a esta atividade\u201d (p. 11). De salientar que inicialmente a DMT era designada por dan\u00e7a-terapia contudo, e apesar da ADTA manter essa designa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 v\u00e1rios anos que a palavra \u201cmovimento\u201d foi inserida de modo a transmitir que a dan\u00e7a \u00e9 uma sequ\u00eancia de movimentos. Nesta linha, s\u00e3o estes que qualificam o meio de comunica\u00e7\u00e3o que se desenvolver\u00e1 ao longo das sess\u00f5es de DMT em vez de uma coreografia inflex\u00edvel como muitos idealizam (Rodr\u00edguez, 2009; Victoria, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente aos principais objetivos da DMT, nomeadamente para a Psiquiatria Institucional, Viegas (2008) considera particularmente a integra\u00e7\u00e3o corporal, a conserva\u00e7\u00e3o ou facilita\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es interpessoais, bem como a possibilita\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o seguro para a express\u00e3o emocional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo a ser poss\u00edvel dar consecu\u00e7\u00e3o aos objetivos supracitados, o terapeuta \u00e9 ent\u00e3o visto enquanto uma testemunha do movimento do cliente, que, sem o julgar, tenta entender o porqu\u00ea daquele movimento e o movimento em si, bem como o que este significa para a pessoa que o est\u00e1 a efetuar. Posto isto, o terapeuta procura ainda desenvolver a sua habilidade para entender o que est\u00e1 a ocorrer no interior do outro (Rodr\u00edguez, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, no que diz respeito \u00e0 metodologia da DMT, esta encontra-se ajustada \u00e0s car\u00eancias do quotidiano de cada um, tendo em conta tanto os seus valores como cren\u00e7as, bem como as suas necessidades e <em>feedbacks<\/em> (Painado &amp; Muzel, 2012). Desta forma, a aplica\u00e7\u00e3o psicoterap\u00eautica do movimento, dentro de um processo de conex\u00e3o entre movimento e emo\u00e7\u00e3o, procura a integra\u00e7\u00e3o psicof\u00edsica (corpo-mente) do indiv\u00edduo, estando compreendida no que se designa por \u201cpsicoterapias corporais\u201d (Federman, 2011; Painado &amp; Muzel, 2012; Ritter &amp; Graff, 1996; Rodr\u00edguez, 2009; Victoria, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Painado e Muzel (2012), a pessoa que recorre \u00e0 DMT \u201cutiliza a dan\u00e7a para sair do isolamento e para aceitar as diferen\u00e7as, resgatando a diversidade e a autenticidade num mundo marcado por estere\u00f3tipos e padroniza\u00e7\u00e3o de estilos, formas e gestos\u201d(p.4). Nesta linha, a aplica\u00e7\u00e3o da DMT destina-se a qualquer pessoa (independentemente da sua sa\u00fade f\u00edsica ou mental e faixa et\u00e1ria) que deseje melhorar a sua qualidade de vida ou que possua uma patologia espec\u00edfica (e.g., perturba\u00e7\u00f5es da ansiedade, perturba\u00e7\u00f5es de comportamento) (Fischman, 2001; Painado &amp; Muzel, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo por base o anteriormente referido, \u00e9 ent\u00e3o necess\u00e1rio ter em conta que a estrutura das sess\u00f5es e a sua natureza (individuais ou em grupo), bem como a estipula\u00e7\u00e3o de objetivos, din\u00e2micas e materiais necess\u00e1rios, variam consoante as caracter\u00edsticas das pessoas com as quais se ir\u00e1 trabalhar. Al\u00e9m disso, antes de se come\u00e7ar a trabalhar com determinado p\u00fablico-alvo \u00e9 necess\u00e1rio realizar uma observa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, adquirir informa\u00e7\u00e3o relevante sobre a sua hist\u00f3ria, bem como ter acesso a um diagn\u00f3stico o mais fi\u00e1vel poss\u00edvel. Neste sentido, \u00e9 fulcral que exista uma boa rela\u00e7\u00e3o com as fam\u00edlias e os profissionais de sa\u00fade, para que possam ter e disponibilizar estas informa\u00e7\u00f5es (Rodr\u00edguez, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com os terapeutas da DMT, o movimento corporal pode conduzir a altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas que se traduzem numa melhoria da sa\u00fade da pessoa, bem como no seu desenvolvimento pessoal (Fischman, 2001; Painado &amp; Muzel, 2012). Por conseguinte, a aten\u00e7\u00e3o e a sensibilidade para com as experi\u00eancias e express\u00f5es do movimento s\u00e3o essenciais para o processo da DMT. Estas fazem parte de um longo caminho que a pessoa tem de percorrer para se conectar com o que realmente \u00ab\u00e9\u00bb. Esta aten\u00e7\u00e3o consciente, intencional e sem julgamento \u00e9, para aqueles que se envolvem com a DMT, uma nova abordagem para si mesmos e para os que<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">os rodeiam (Pylv\u00e4n\u00e4inen, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao contr\u00e1rio da comunica\u00e7\u00e3o verbal, os aspetos f\u00edsicos e corporais n\u00e3o est\u00e3o submetidos a processos intelectuais. Sendo o foco principal do trabalho terap\u00eautico a utiliza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-verbal por meio do movimento do corpo, tal enfatiza os processos psicol\u00f3gicos do mesmo (Rust-D&#8217;Eye, 2013). Por seu turno, a linguagem \u00e9 utilizada com cuidado pelos terapeutas da DMT com o prop\u00f3sito de clarificar o processo de grupo e a sua utiliza\u00e7\u00e3o por parte dos clientes \u00e9 incentivada perante determinadas circunst\u00e2ncias para facilitar a interliga\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es outrora inconscientes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este destaque dado ao movimento do corpo fortalece o que a orienta\u00e7\u00e3o psicodin\u00e2mica postula: movimento como \u00fanica forma direta de viabilizar o acesso \u00e0s emo\u00e7\u00f5es da pessoa e tornar consciente o que se encontra latente, com o sentido de a auxiliar a entender quais as emo\u00e7\u00f5es que possam estar relacionadas com o seu estado de sa\u00fade atual (Cigaran, 2009; Santana, 2009). Devido \u00e0 import\u00e2ncia dada ao envolvimento relacional entre os corpos e movimento do cliente e terapeuta na DMT, o toque surge tamb\u00e9m como um elemento fundamental para o sucesso da terapia. Contudo, ainda n\u00e3o existem diretrizes \u00e9ticas para a sua aplica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existindo assim uma identifica\u00e7\u00e3o formal dos seus efeitos (Popa &amp; Best, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PROVA EMP\u00cdRICA DOS EFEITOS DA DMT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo inteiro, o n\u00famero de pessoas que se tem debru\u00e7ado sobre o valor terap\u00eautico da dan\u00e7a e na descoberta de si pr\u00f3prias atrav\u00e9s do movimento, tem vindo a crescer (Fischman, 2001). O interesse tanto pela DMT como pelos seus fundamentos, objetivos e efeitos aumentou exponencialmente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, principalmente entre finais do s\u00e9culo XX e meados do s\u00e9culo XXI, coexistindo com \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da ADTA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autores como Ritter e Low (1996 cit. in Koch, Kunz, Lykou &amp; Cruz, 2014) vieram demonstrar que a DMT \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o eficaz para diferentes sintomas, em particular na diminui\u00e7\u00e3o da ansiedade e para diferentes grupos de indiv\u00edduos de diversas faixas et\u00e1rias. Estes resultados s\u00e3o inferiores aos encontrados por Cruz e Sabers (1998 cit. in Koch, Kunz, Lykou &amp; Cruz, 2014) que consideram que os efeitos positivos da DMT s\u00e3o compar\u00e1veis com os de outras terapias (e.g., farmacol\u00f3gicas, psicoterapias verbais). Em Portugal, num estudo realizado no Centro Hospitalar Psiqui\u00e1trico de Lisboa durante 4 anos, verificou-se que na maioria da popula\u00e7\u00e3o em estudo (99%) a DMT contribuiu para uma diminui\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de ansiedade, melhoria no relacionamento intra e interpessoal, bem como para um aumento da sua autoconfian\u00e7a (Vieira, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A DMT \u00e9 considerada por diversos autores uma interven\u00e7\u00e3o eficaz para v\u00e1rias patologias, nomeadamente: ansiedade, autismo (crian\u00e7as e adultos), fibrose c\u00edstica, depress\u00e3o (tanto em adolescentes como em idosos), cancro da mama, dem\u00eancia, perturba\u00e7\u00e3o somatoforme, <em>stress,<\/em> dist\u00farbios alimentares, fibromialgia, artrite reumatoide, psicose e esquizofrenia (Br\u00e4uninger, 2014; Koch, Kunz, Lykou &amp; Cruz, 2013; Rodr\u00edguez, 2011). Esta parece ainda contribuir para retardar o come\u00e7o da doen\u00e7a de Alzheimer, bem como estabilizar fun\u00e7\u00f5es cognitivas, processos de recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e habilidades de linguagem nestes doentes. Nos indiv\u00edduos com doen\u00e7a de Parkinson existem evid\u00eancias de que a DMT contribui para um melhor equil\u00edbrio e coordena\u00e7\u00e3o (Br\u00e4uninger, 2014). Autores acrescentam ainda que a DMT contribui para a melhoria da qualidade de vida, bem-estar, humor, afeto, perce\u00e7\u00e3o de imagem corporal e compet\u00eancia interpessoal (Br\u00e4uninger, 2014; Koch, Kunz, Lykou &amp; Cruz, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Painado e Muzel (2012) quem pratica DMT regularmente estimula as suas potencialidades que, apesar de as ter, n\u00e3o tem consci\u00eancia de que as possui. Assim, como recurso complementar esta vem n\u00e3o s\u00f3 desenvolver a consci\u00eancia do corpo, como tamb\u00e9m dar a conhecer as suas potencialidades e limites.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ao longo dos anos, o n\u00famero de investiga\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 DMT terem vindo a aumentar, verifica-se que a maior parte destas s\u00e3o de car\u00e1ter qualitativo sendo essencialmente estudos de caso, o que possivelmente se justifica pela natureza das terapias unidas \u00e0 arte que enfatizam a criatividade e formas subjetivas do saber (Koch, Kunz, Lykou &amp; Cruz, 2014; Ritter &amp; Graff, 1996).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Cochrane Reviews (2009 cit. in Koch, Kunz, Lykou &amp; Cruz, 2014) \u00e9 fulcral melhorar os desenhos de pesquisa da DMT. Assim, sendo a pesquisa baseada em evid\u00eancias importantes como a garantia de que a DMT e o uso terap\u00eautico da dan\u00e7a enquanto interven\u00e7\u00f5es eficazes para problemas de sa\u00fade mental, a demonstra\u00e7\u00e3o emp\u00edrica da efic\u00e1cia da DMT \u00e9 essencial para a promover, bem como para a sua sobreviv\u00eancia enquanto profiss\u00e3o (Koch, Kunz, Lykou &amp; Cruz, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A DMT ALIADA \u00c0 NEUROCI\u00caNCIA: OS NEUR\u00d3NIOS ESPELHO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Ramachandran (2003, cit. in Rodr\u00edguez, 2011) existe uma discuss\u00e3o ainda muito arraigada relativamente \u00e0 exist\u00eancia ou n\u00e3o de conex\u00e3o entre arte e ci\u00eancia. Assim, tendo a arte a sua origem no c\u00e9rebro, o mesmo autor considera que deveria ser poss\u00edvel afirmar que os avan\u00e7os conseguidos ao longo dos anos relativamente \u00e0 compreens\u00e3o da base neurol\u00f3gica dos fen\u00f3menos psicol\u00f3gicos (e.g., imagem corporal, perce\u00e7\u00e3o visual), tamb\u00e9m se deveriam empregar a esta. Nesta linha, ao se compreender algumas liga\u00e7\u00f5es no c\u00e9rebro, ir-se-ia progressivamente unir arte e ci\u00eancia, sendo neste ponto que surge a DMT. Deste modo, as \u00faltimas investiga\u00e7\u00f5es realizadas no \u00e2mbito da neurologia e da psicologia cognitiva, bem como os progressos realizados na compreens\u00e3o dos mecanismos que possibilitam estudar e examinar as fun\u00e7\u00f5es cerebrais, t\u00eam vindo a contribuir para amplificar o leque de possibilidades para o estudo da pr\u00f3pria DMT (Rodr\u00edguez, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das investiga\u00e7\u00f5es realizadas conv\u00e9m referir as que se<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">focalizaram nos neur\u00f3nios-espelho que se encontram implicados na t\u00e9cnica de \u201cEspelhamento\u201d de Marian Chace que, dadas as suas implica\u00e7\u00f5es psicoterap\u00eauticas, s\u00e3o de enorme relev\u00e2ncia cl\u00ednica para a DMT (Berrol, 2006; Rodr\u00edguez, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os neur\u00f3nios-espelho foram relatados pela primeira vez num estudo efetuado em It\u00e1lia na d\u00e9cada de 90 por Rizzolatti e colaboradores, que conduziu \u00e0 descoberta da sua exist\u00eancia no lobo frontal de macacos. Estes investigadores verificaram que o conjunto de neur\u00f3nios que era ativado quando o macaco realizava determinado movimento, era tamb\u00e9m ativado quando viam uma pessoa ou outro macaco a faz\u00ea-lo (Berrol,2006; Hari &amp; Kujala, 2009). Desta forma, foi poss\u00edvel concluir que o neur\u00f3nio deste macaco copiava o comportamento da outra pessoa como se ele pr\u00f3prio o estivesse a produzir\u00a0(Hari &amp; Kujala, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transpondo a descoberta supracitada para os seres humanos, estes neur\u00f3nios seriam respons\u00e1veis por levar uma pessoa a produzir um \u201cespelhamento\u201d do comportamento de outra pessoa, de forma inconsciente. Nesta linha, obter-se-ia ent\u00e3o, uma imagem como se fosse um reflexo num espelho (Hari &amp; Kujala, 2009). Assim, atuando enquanto <em>feedbacks<\/em> baseados na experi\u00eancia, as descargas neuronais deixam de ser provocadas pelo racioc\u00ednio, passando a ser despoletadas por uma simula\u00e7\u00e3o direta dos acontecimentos observados atrav\u00e9s do mecanismo de espelho (Berrol, 2006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Posteriormente, e ap\u00f3s diversos estudos, foi poss\u00edvel concluir que o sistema de espelho do ser humano parece estar diretamente envolvido na obten\u00e7\u00e3o de habilidades sociais, bem como na aptid\u00e3o para perceber e antecipar tanto as emo\u00e7\u00f5es como as inten\u00e7\u00f5es dos outros, e ainda na empatia (Rodr\u00edguez, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As \u00e1reas fundamentais do Sistema dos Neur\u00f3nios-Espelho (SNE) s\u00e3o a <strong>regi\u00e3o da Broca<\/strong> (c\u00f3rtex frontal inferior esquerdo) e o <strong>c\u00f3rtex pr\u00e9-motor ventral<\/strong>, no entanto o <strong>lobo parietal<\/strong> tamb\u00e9m demonstrou fun\u00e7\u00f5es semelhantes. Estas \u00e1reas servem como uma interface entre a\u00e7\u00e3o e perce\u00e7\u00e3o (Hari &amp; Kujala, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A regi\u00e3o da Broca no hemisf\u00e9rio esquerdo, classicamente contribui para a produ\u00e7\u00e3o da fala e permite fazer planos, observar, entender e imitar. Al\u00e9m disso, sugere-se que cont\u00e9m os \u201cverdadeiros neur\u00f3nios espelho\u201d na sua por\u00e7\u00e3o dorsal (Hari &amp; Kujala, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de n\u00e3o terem verdadeiras propriedades de neur\u00f3nios-espelho (visto que s\u00f3 s\u00e3o ativados quando observamos o movimento de outra pessoa e n\u00e3o quando realizamos o mesmo movimento), os <strong>sulcos temporais superiores posteriores (STSp<\/strong>) e o <strong>lobo parietal inferior (IPL)<\/strong> contribuem para o SNE. O IPL acomoda informa\u00e7\u00e3o motora e cinest\u00e9sica com <em>inputs<\/em> visuais, auditivos e somatosensoriais. A regi\u00e3o STSp responde a faces, assim como a uma variedade de a\u00e7\u00f5es vistas ou ouvidas que s\u00e3o produzidas por outra pessoa, incluindo o som dos passos (Hari &amp; Kujala, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adicionalmente, o SNE \u00e9 modelado pela \u00ednsula e pelo sistema l\u00edmbico durante a imita\u00e7\u00e3o social, o que permite realizar mecanismos cerebrais de empatia (Hari &amp; Kujala, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A descoberta dos neur\u00f3nios-espelho veio transformar drasticamente o ponto de vista neurofisiol\u00f3gico tradicional relativamente ao sistema motor enquanto autor exclusivo dos movimentos (Hari &amp; Kujala, 2009). Deste modo, a neurologia vem confirmar o que se aplica na DMT aquando da utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica do \u201cEspelhamento\u201d, visto que o sistema de espelho opera como um meio de liga\u00e7\u00e3o entre dois c\u00e9rebros permitindo a sua conex\u00e3o e uni\u00e3o a diferentes n\u00edveis. Assim, a revis\u00e3o da literatura aponta para que a express\u00e3o emocional, o desenvolvimento da imagem corporal e ainda a empatia, claramente danificadas em alguns indiv\u00edduos, podem ser explicadas a partir de uma base neurol\u00f3gica e trabalhadas \u200b\u200bdentro de um processo terap\u00eautico em DMT (Rodr\u00edguez, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo que ver o movimento de outra pessoa ativa o sistema motor do observador, porque ser\u00e1 que um observador saud\u00e1vel n\u00e3o se movimenta durante a observa\u00e7\u00e3o? Isto acontece, aparentemente, devido \u00e0 ativa\u00e7\u00e3o neuronal induzida pela observa\u00e7\u00e3o ser mais fraca do que a ativa\u00e7\u00e3o neuronal aquando da realiza\u00e7\u00e3o do movimento. Contudo, tamb\u00e9m existe uma inibi\u00e7\u00e3o ativa da a\u00e7\u00e3o motora pelos lobos frontais m\u00e9dio e lateral em observadores saud\u00e1veis, o que tamb\u00e9m explica este facto (Hari &amp; Kujala, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consoante o objetivo final, as a\u00e7\u00f5es de outra pessoa podem afetar ativamente os padr\u00f5es motores do observador de uma forma completamente autom\u00e1tica, permitindo assim conseguir fazer uma simples imita\u00e7\u00e3o (como ocorre nas aulas de aer\u00f3bica), ou mesmo acompanhar, de forma complementar, os movimentos de outra pessoa (como nas aulas de dan\u00e7a a par) (Hari &amp; Kujala, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De referir que, de modo a se compreender melhor os fen\u00f3menos supramencionados, \u00e9 essencial efetuarem-se mais investiga\u00e7\u00f5es alusivas ao c\u00e9rebro, bem como ao seu funcionamento (Ritter &amp; Graff, 1996; Rodr\u00edguez, 2011). Contudo, de acordo com Rodr\u00edguez (2011) o caminho a percorrer \u00e9 aquele em que a mente e corpo v\u00e3o lado-a-lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O QUE \u00c9 PRECISO PARA SE SER UM TERAPEUTA DE DMT<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se ser um terapeuta de DMT \u00e9 necess\u00e1rio que a pessoa seja licenciada em DMT e possua um amplo conhecimento relativamente a: teoria e hist\u00f3ria da DMT, processos te\u00f3ricos e experimentais de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, psicopatologia, din\u00e2mica de grupo, psicoterapia e psicologia din\u00e2mica geral, teorias psicol\u00f3gicas do desenvolvimento do movimento, t\u00e9cnicas de observa\u00e7\u00e3o e express\u00e3o do movimento e teorias psicol\u00f3gicas do desenvolvimento (Cigaran, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, deve ter experimentado no m\u00ednimo dois anos de psicoterapia individual (1h semanal m\u00ednima e iniciada durante a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o) e pelo menos 600-700 horas de pr\u00e1tica<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">cl\u00ednica supervisionada (Cigaran, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com os terapeutas da DMT, o movimento corporal pode conduzir a altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas que se traduzem numa melhoria da sa\u00fade da pessoa, bem como no seu desenvolvimento pessoal (Fischman, 2001; Painado &amp; Muzel, 2012). \u00c9 com base neste pressuposto que surge a DMT que, com as suas diferentes abordagens e especifica\u00e7\u00f5es, pretende fazer com que o terapeuta auxilie o cliente a aceder ao seu inconsciente e \u00e0s suas emo\u00e7\u00f5es, bem como a relacion\u00e1-las com o seu estado de sa\u00fade, sem nunca o julgar ou estigmatizar (Cigaran, 2009; Rodr\u00edguez, 2011; Santana, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ess\u00eancia multidisciplinar da DMT possibilita a an\u00e1lise de toda a capacidade de express\u00e3o criativa e art\u00edstica ao longo de um processo terap\u00eautico. Deste modo, as pesquisas que t\u00eam vindo a ser concretizadas possibilitam que estas capacidades possam ser sustentadas, bem como conceitos como emo\u00e7\u00e3o, imagem corporal, autoconceito, e empatia. Assim, a DMT torna-se uma profiss\u00e3o num ponto entre arte e ci\u00eancia (Rodr\u00edguez, 2011). Contudo, dado a natureza das investiga\u00e7\u00f5es efetuadas at\u00e9 \u00e0 data, \u00e9 necess\u00e1rio aperfei\u00e7oar o <em>design<\/em> das mesmas no sentido de se conseguir uma demonstra\u00e7\u00e3o emp\u00edrica da efic\u00e1cia da DMT (Koch, Kunz, Lykou &amp; Cruz, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das investiga\u00e7\u00f5es realizadas, conv\u00e9m salientar a descoberta de exist\u00eancia dos neur\u00f3nios-espelho que vieram confirmar o que se aplica na DMT aquando da utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica de \u201cEspelhamento\u201d. Assim, esta t\u00e9cnica, de t\u00e3o grande relev\u00e2ncia cl\u00ednica para a DMT, passa a ser fundamentada a partir de uma base neurol\u00f3gica\u200b\u200b (Berrol, 2006; Rodr\u00edguez, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ainda existir pouca sustenta\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, os benef\u00edcios da DMT v\u00e3o tornando-se evidentes para cada vez mais pessoas, sendo maior o n\u00famero de quem recorre \u00e0 mesma para se descobrir a si pr\u00f3prio, atrav\u00e9s do seu movimento (Fischman, 2001).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na consecu\u00e7\u00e3o deste artigo o principal desafio cingiu-se nomeadamente \u00e0 recolha de informa\u00e7\u00e3o relevante para a sustenta\u00e7\u00e3o neuropsicol\u00f3gica da DMT, sendo imprescind\u00edvel que investiga\u00e7\u00f5es futuras sejam desenvolvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Em modo de conclus\u00e3o, e recorrendo \u00e0s palavras de Rodr\u00edguez (2011), de forma a resumir tudo o que a DMT comporta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cLa Danza Movimiento Terapia revive el arte de la danza en sus elementos fundamentales: el ritmo, como una forma especial de conectar el movimiento en el espacio y el tiempo; la m\u00fasica, el arte de la composici\u00f3n, el juego del cuerpo en relaci\u00f3n con el peso y la gravedad, la armon\u00eda como una forma de reconocer y activar las conexiones que dan estructura a nuestro cuerpo y la belleza del gesto corporal sentido en lo m\u00e1s profundo por el bailar\u00edn\u201d (p.9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Berrol, C. (2006). Neuroscience Meets Dance\/Movement Therapy: Mirror Neurons, the Therapeutic Process and Empathy. <em>The Arts in Psychotherapy, 33<\/em>, 302-315.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Br\u00e4uninger, I. (2014). Specific dance movement therapy interventions\u2014Which are successful? An intervention and correlation study. <em>The Arts in Psychotherapy, 41<\/em>, 445-457.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Federman, D. (2011). Kinaesthetic Change in the Professional Development of Dance Movement Therapy trainees,. <em>Body, Movement and Dance in Psychotherapy: An International Journal for Theory, Research and Practice, 6 <\/em>(3), 195-214.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fischman, D. (2001). <em>Danzaterapia: or\u00edgenes y fundamentos.<\/em> Obtido de Brecha: http:\/\/www.brecha.com.ar\/danzaterapia_origenes_fundamentos.pdf<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hari, R., &amp; Kujala, M. (2009). Brain Basis of Human Social Interaction: From Concepts to Brain Imaging. <em>Physiol Rev<\/em>, <em>89<\/em>, 453-479.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Koch, S., Kunz, T., Lykou, S., &amp; Cruz, R. (2014). Effects of dance movement therapy and dance on health-related psychological outcomes: A meta-analysis. <em>The Arts in Psychotherapy, 41<\/em>, 46-64.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Painado, M., &amp; Muzel, A. (2012). A Contribui\u00e7\u00e3o da Dan\u00e7aterapia no Processo de Reabilita\u00e7\u00e3o. <em>Revista da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Agr\u00e1rias de Itapeva, <\/em>1-6.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Peto, A. (2000). Terapia Atrav\u00e9s da dan\u00e7a com Laringectomizados: Relato de Experi\u00eancia. <em>Revista Latino-Americana de Enfermagem, 8 <\/em>(6), 35-39.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Popa, M., &amp; Best, P. (2010). Making Sense of Touch in Dance Movement Therapy: A Trainee&#8217;s Perspective. <em>Body, Movement and Dance in Psychotherapy: An International Journal for Theory, Research and Practice, 5 <\/em>(1), 31-44.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pylv\u00e4n\u00e4inen, P. (2010). The dance\/movement therapy group in a psychiatric outpatient clinic: explorations in body image and interaction. <em>Body, Movement and Dance in Psychotherapy: An International Journal for Theory, Research and Practice, 5 <\/em>(3), 219-230.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ritter, M., &amp; Graff, K. (1996). Effects of Dance\/ Movement Therapy: A Meta-analysis. <em>The Arts in Psychotherapy, 23 <\/em>(3), 249-260.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodr\u00edguez, S. (2009). Danza Movimiento Terapia: Cuerpo, Psique y Terapia. <em>Avances en Salud Mental Relacional, 8 <\/em>(2), 1-20.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodr\u00edguez, R. (2011). Uniendo Arte y Ciencia a trav\u00e9s de la Danza Movimiento Terapia. <em>Danzaratte: Revista del Conservatorio Superior de Danza de M\u00e1laga, 7<\/em>, 4-11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rust-D&#8217;Eye, A. (2013). The Sounds of the Self: Voice and Emotion in Dance\/Movement Therapy. <em>Body, Movement and Dance in Psychotherapy: An International Journal for Theory, Research and Practice, 8 <\/em>(2), 95-107.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santana, N. (2009). El Papel de la Danza Movimiento Terapia en una instituici\u00f3n de salud mental. <em>Avances en Salud Mental Relacional, 8 <\/em>(3), 1-8.<\/p>\n<p>Victoria, H. (2012). Creating Dances to Transform Inner States: A Choreographic Model in Dance\/Movement Therapy. <em>Body, Movement and Dance in Psychotherapy: An International Journal for Theory, Research and Practice, 7 <\/em>(3), 167-183.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vieira, L. (2008). Dan\u00e7a Movimento Terapia: No Centro Hospitalar Psiqui\u00e1trico de Lisboa. <em>Bipolar &#8211; Revista da Associa\u00e7\u00e3o de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, 34<\/em>, 11.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wengrower, H. (2010). The Dance of Discovery: Research and Innovation in Dance\/Movement Therapy. <em>Body, Movement and Dance in Psychotherapy: An International Journal for Theory, Research and Practice, 5 (2)<\/em>, 203-205.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O espelho por tr\u00e1s da dan\u00e7a movimento terapia A Dan\u00e7a Movimento Terapia (DMT) foi desenvolvida nos anos 40 com a ambi\u00e7\u00e3o de que atrav\u00e9s da dan\u00e7a e do movimento corporal, o terapeuta acedesse ao \u00edntimo do seu cliente ajudando-o a relacionar as suas emo\u00e7\u00f5es com o seu estado de sa\u00fade presente. 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