{"id":36929,"date":"2016-03-20T14:05:23","date_gmt":"2016-03-20T13:05:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.revista-portalesmedicos.com\/revista-medica\/?p=36929"},"modified":"2020-11-23T10:27:49","modified_gmt":"2020-11-23T09:27:49","slug":"intervencao-neuropsicologica-e-tumor-cerebral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revista-portalesmedicos.com\/revista-medica\/intervencao-neuropsicologica-e-tumor-cerebral\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o Neuropsicol\u00f3gica e Tumor Cerebral"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: left;\"><strong>Interven\u00e7\u00e3o Neuropsicol\u00f3gica e Tumor Cerebral<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) Andreia Pereira, Mestrado em Psicologia Cl\u00ednica e da Sa\u00fade, Universidade da Beira Interior, Portugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) Luis Alberto C.R. Maia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professor &#8211; Beira Interior University Portugal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clinical Neuropsychologist, PhD (USAL &#8211; Spain) Neuroscientist, MsC (Medicine School of Lisbon &#8211; Portugal) Medico Legal Specialist (Medicine Institute Abel Salazar &#8211; Oporto, Portugal) Graduation in Clinical Neuropsychology (USAL &#8211; Spain) Graduation in Investigative Proficiency on Psychobiology (USAL &#8211; Spain) Clinical Psychologist (Minho University &#8211; Portugal)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo: <\/strong>Este texto tem como objectivo explorar o tumor cerebral, como um dos tipos de doen\u00e7a oncol\u00f3gica com consequ\u00eancias mais gravosas para o indiv\u00edduo. Assim, s\u00e3o explicitadas v\u00e1rios aspectos referentes ao processo de forma\u00e7\u00e3o da massa tumoral, v\u00e1rias tipologias do tumor cerebral, sintomatologia cl\u00ednica, metodologias e exames de avalia\u00e7\u00e3o e diagn\u00f3stico da neoplasia. A interven\u00e7\u00e3o nesta \u00e1rea \u00e9 o principal foco do trabalho, onde se abordam os v\u00e1rios tipos de tratamento m\u00e9dico e as v\u00e1rias \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o neuropsicol\u00f3gica, quer na reabilita\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es cerebrais, quer na interven\u00e7\u00e3o psicopatol\u00f3gica adjacente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:<\/strong> tumor Cerebral, Interven\u00e7\u00e3o Neuropsicol\u00f3gica, Neuro-oncologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:<\/strong> The present work aims exploring the brain tumor, as one of the types of cancer disease with serious consequences for the individual. Therefore various aspects about the process of formation the tumor mass are explicited, such as: several types of brain tumor, clinical symptoms, methods and tests for the evaluation and diagnosis of cancer. The intervention in this area is the principal subject of this work, where they approach and discuss the various types of medical treatment and the various areas of neuropsychological performance in the rehabilitation of brain functions or in the adjacent psychopathological intervention.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:<\/strong> Brain Tumor, Neuropsychological Intervention, Neuro-Oncology.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A neoplasia cerebral ou tumor cerebral \u00e9 um dos tipos de tumor menos prevalente, sendo tamb\u00e9m considerado como um dos mais preocupantes. As neoplasias cerebrais podem ser definidas como prolifera\u00e7\u00f5es celulares anormais onde as c\u00e9lulas em mitose perdem a capacidade de se diferenciar devido a mudan\u00e7as nos genes que regulam o crescimento e a diferencia\u00e7\u00e3o celular (Cassidy, Bisset &amp; Spence, 2002). Podem ser prim\u00e1rias, quando s\u00e3o origin\u00e1rias do tecido cerebral, ou secund\u00e1rias, quando s\u00e3o origin\u00e1rias de met\u00e1steses de tumores de outra parte do corpo que acabam por se instalar no c\u00e9rebro (Linsay &amp; Bone, 2010 cit in Domingues &amp; Calado, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente \u00e0 sua etiologia, ainda que n\u00e3o existam muitas conclus\u00f5es acerca do mesmo, sabe-se que factores gen\u00e9ticos podem estar na influ\u00eancia da forma\u00e7\u00e3o do tumor cerebral, sendo que hist\u00f3rico familiar direto de neoplasias constitui um fator de risco (Cassidy et al., 2002; Bunyaratavej, Siwanuwatn, Chantra &amp; Khaoroptham, 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tumores cerebrais podem tamb\u00e9m dividir-se em benignos ou malignos, classifica\u00e7\u00e3o atribu\u00edda tendo em conta a rapidez com se desenvolve a massa tumoral e da agressividade da mesma (Cassidy et al., 2002; Alarc\u00f3n &amp; Martin, 2011). Mesmo os tumores benignos, por afetarem o tecido cerebral, podem interferir em v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es cerebrais essenciais para a vida di\u00e1ria, levando \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de d\u00e9fices funcionais bastante perturbadores para os doentes e as fam\u00edlias, visto que tendem a manifestar-se inclusiv\u00e9 na estrutura da personalidade (Louis et al., 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m dos temores benignos ou malignos, existem ainda v\u00e1rios tipos de tumores cerebrais, sendo que na maioria dos casos o tumor \u00e9 nomeado pelo tipo de c\u00e9lula de origem, de acordo com a sua localiza\u00e7\u00e3o. Os tumores cerebrais prim\u00e1rios subdividem-se em tumores da glia e tumores n\u00e3o-gliais (Flowers, 2000; Louis et al., 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os tumores da glia, como o nome indica revelam a influ\u00eancia das c\u00e9lulas da glia, que t\u00eam um papel de suporte, protec\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o dos neur\u00f3nios. Um tumor que envolve este tipo de c\u00e9lulas \u00e9 por norma denominado de glioma (Furnari et al., 2007; Ferro &amp; Pimentel, 2006; Brainer-Lima, Brainer-Lima, Filho &amp; Cukiert, 2002) e ainda que seja mais prevalente em adultos, estima-se que 20% das condi\u00e7\u00f5es malignas estejam j\u00e1 presentes desde os 15 anos de idade (Linsay &amp; Bone, 2010 cit in Domingues &amp; Calado, 2014). Os gliomas encontram-se tamb\u00e9m dividos em subgrupos, dependendo da localiza\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas gliais, como o astrocitoma, os oligodendrogliomas (Furnari et al., 2007; Ferro &amp; Pimentel, 2006) e os astroblastomas (Agarwal, Mally, Palande &amp; Velho, 2012; Brainer-Lima et al., 2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O astrocitoma desenvolve-se dos astr\u00f3citos que servem de suporte aos neur\u00f3nios, sendo o tipo de tumor cerebral mais comum e podendo classificar-se do grau I (com crescimento lento) at\u00e9 ao grau IV (invasivo e com crescimento r\u00e1pido), grau mais comum nos tumores cerebrais prim\u00e1rios (Furnari et al., 2007; Louis et al., 2007). Os oligodendrogliomas desenvolvem-se a partir dos oligodendr\u00f3citos e s\u00e3o classificados como de menor ou maior grau. Os astroblastomas s\u00e3o tumores gliais raros de origem incerta e comportamento imprevis\u00edvel (Bell et al., 2007 cit in Domingues &amp; Calado, 2014; Agarwal, Mally, Palande &amp; Velho, 2012; Brainer-Lima et al., 2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente aos tumores n\u00e3o-gliais, que englobam uma vasta gama de tumores cerebrais, s\u00e3o assim denominados por conjugarem uma mistura de outras tipologias celulares diferentes das anteriores. Um dos tumores n\u00e3o-gliais \u00e9 o meningioma, que cresce a partir das meninges, podendo ser classificado do grau I ao grau III, do benigno ao maligno (Louis et al., 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente \u00e0 sintomatologia, podem classificar-se os sintomas como: visuais \u2013 diminui\u00e7\u00e3o da acuidade visual, vis\u00e3o desfocada, diminui\u00e7\u00e3o do campo visual; hormonais \u2013 altera\u00e7\u00f5es da l\u00edbido; motores \u2013 enfraquecimento do n\u00edvel de for\u00e7a muscular das extremidades; aumento da press\u00e3o intracranina \u2013 tonturas, ataxia, vertigens; e convuls\u00f5es (Flowers, 2000; Bunyaratavej et al., 2010; Louis et al., 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do cancro ser uma doen\u00e7a bastante conhecida, no caso das neoplasiais cerebrais o diagn\u00f3stico \u00e9 geralmente feito tardiamente, existindo algum tempo de intervalo entre o in\u00edcio dos sintomas e o momento em que o diagn\u00f3stico \u00e9 feito (Liu, Page, Solheim, Fox &amp; Chang, 2009). Os sintomas tendem ent\u00e3o a ser ignorados em primeira inst\u00e2ncia, sendo que por norma s\u00f3 numa fase aguda os <\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">pacientes recorrem \u00e0 ajuda m\u00e9dica (Bunyaratavej et al., 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Avalia\u00e7\u00e3o e diagn\u00f3stico <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a defini\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico de neoplasia cerebral s\u00e3o necess\u00e1rios um conjunto de informa\u00e7\u00f5es, podendo ser utilizadas um conjundo de t\u00e9cnicas morfol\u00f3gicas, imunohistoqu\u00edmicas e de biologia molecular para identificar o tipo e grau do tumor (Bunyaratavej et al., 2010). Um dos crit\u00e9rios importantes no estabelecimento do diagn\u00f3stico \u00e9 grau de anaplasia, ou seja, o modo pelo qual as c\u00e9lulas tumorais crescem com a perda da forma ou a estrutura normal, indicando assim o potencial de crescimento de um tumor (Mastrangelo et al., 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m a informa\u00e7\u00e3o referente \u00e0 morfologia anterior \u00e0 doen\u00e7a, \u00e0 morfologia da doen\u00e7a parecem ser relevantes, da mesma forma que a informa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica do doente referente ao historial cl\u00ednico relevante, localiza\u00e7\u00e3o da les\u00e3o, recursos de neuroimagem e sintomatologia apresentada (Flowers, 2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exame mais utilizado para a detec\u00e7\u00e3o de tumores cerebrais \u00e9 a resson\u00e2ncia magn\u00e9tica nuclear (RMN), captando imagens que permitem uma visualiza\u00e7\u00e3o tri-dimensional do tumor. Outro exame bastante utilizado \u00e9 a tomografia axial computadorizada (TAC), que permite uma observa\u00e7\u00e3o dos tecidos moles, estrutura \u00f3ssea e vasos sangu\u00edneos (Flowers, 2000; Mastrangelo et al., 2010).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A biopsia \u00e9 o \u00fanico m\u00e9todo de diagn\u00f3stico que permite o diagn\u00f3stico definitivo, consistindo num processo cir\u00fargico no qual \u00e9 retirada uma amostra tecidual do local do tumor para posterior exame. Por norma \u00e9 efectuada durante uma craniotomia, podendo tamb\u00e9m ser realizada atrav\u00e9s de uma agulha de biopsia, quando a cirurgia n\u00e3o \u00e9 aconselhada ou poss\u00edvel (Agarwal et al., 2012; Louis et al., 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo este processo de avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de valorizar as provas do exame neuropsicol\u00f3gico com um elemento de diagn\u00f3stico, uma vez que tendem a existir alguns d\u00e9fices neurol\u00f3gicos associados \u00e0s diferentes \u00e1reas cerebrais que possam estar afectadas (Agarwal et al., 2012; Louis et al., 2007; Ferro &amp; Pimentel, 2006). Desta forma a avalia\u00e7\u00e3o neuropsicol\u00f3gica, recorrendo a provas espec\u00edficas a cada \u00e1rea funcional e anat\u00f3mica, tem o objectivo de confirmar a suspeita diagn\u00f3stica, diferenciar aspectos focais e difusos, perceber os d\u00e9fices, as redes funcionais afetadas e intactas, perceber o grau de deterioriza\u00e7\u00e3o, avaliar o grau de impato na vida di\u00e1ria e estruturar o programa de interven\u00e7\u00e3o, reabilita\u00e7\u00e3o e reintegra\u00e7\u00e3o dos pacientes (Domingues &amp; Calado, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Interven\u00e7\u00e3o neuropsicol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A possibilidade ou tempo de sobreviv\u00eancia est\u00e1 normalmente relacionada com m\u00faltiplos factores como a idade do paciente, o tipo de tumor e a sua localiza\u00e7\u00e3o, tipo de tratamento e ainda com a condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica do doente no momento do diagn\u00f3stico (Domingos, 1997). \u00c9 extremamente dif\u00edcil no entanto definir um progn\u00f3stico, sendo o tumor cerebral bastante imprevis\u00edvel e uma vez que ainda que seja bem circunscrito \u00e9 poss\u00edvel que venha a reincidir (Unal et al., 2008 cit in Domingues &amp; Calado, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tratamento vai tamb\u00e9m depender de v\u00e1rios aspectos como as caracter\u00edsticas idiossincr\u00e1ticas, o hist\u00f3rico e a condi\u00e7\u00e3o funcional do doente, e tamb\u00e9m a localiza\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o do tumor e o n\u00famero de met\u00e1steses. Por norma, o tratamento para os tumores cerebrais passa pela cirurgia, seguida de radioterapia e de quimioterapia, dependentemente da susceptibilidade do tumor aos f\u00e1rmacos (Caroli et al., 2004 cit in Domingues &amp; Calado, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cirurgia, comummente denominada de ressec\u00e7\u00e3o completa ou total \u00e9 a primeira metodologia a que se recorre com o objectivo de remover o tumor sem causar danos nas fun\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas (Flowers, 2000; Sino et al., 2007; Santos &amp; Vinagre, 2006). Muitas destas cirurgias s\u00e3o efectuadas com o indiv\u00edduo acordado, ao mesmo tempo que se v\u00e3o estimulando \u00e1reas de reac\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro, de forma a garantir a funcionalidade das mesmas, no decorrer da opera\u00e7\u00e3o (Gugino, Aglio &amp; Raymond, 2001 cit in Santos &amp; Vinagre, 2006), em situa\u00e7\u00f5es de maior est\u00edmulo doloroso ou onde n\u00e3o h\u00e1 necessidade de colabora\u00e7\u00e3o do paciente, algumas t\u00e9cnicas de anestesia s\u00e3o aplicadas (Aglio &amp; Gugino, 2001 cit in Santos &amp; Vinagre, 2006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A radioterapia utiliza raios-x de energia ou outras tipologias de radia\u00e7\u00e3o ionizante para travar a divis\u00e3o das c\u00e9lulas tumorais, pode ser utilizada ap\u00f3s a cirurgia para destruir c\u00e9lulas tumorais residuais e ao inv\u00e9s da cirurgia, atuando na paragem ou redu\u00e7\u00e3o do crescimento de tumores, quando a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel (Sino et al., 2007). Esta t\u00e9cnica tem alguns efeitos secund\u00e1rios a curto prazo como cansa\u00e7o, perda de apetite, n\u00e1usea, perda de mem\u00f3ria, reac\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas e poss\u00edvel queda de cablo (Flowers, 2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quimioterapia \u00e9 o tratamento por meio de f\u00e1rmacos que possui um efeito t\u00f3xico nas c\u00e9lulas tumorais enquanto estas se dividem. Esta forma de tratamento \u00e9 administrada por via oral ou intravenosa em ciclos que contemplam fases de tratamento, ciclos esses que dependem do tipo de f\u00e1rmaco utilizado (Lisboa &amp; Teixeira, 2002). S\u00e3o v\u00e1rios os efeitos secund\u00e1rios da quimioterapia que atua tamb\u00e9m na divis\u00e3o de c\u00e9lulas saud\u00e1veis como as erup\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas, n\u00e1useas, anorexia, anemia, cansa\u00e7o, tonturas, febre e infec\u00e7\u00f5es (Flowers, 2000). F\u00e1rmacos ester\u00f3ides, como a dexametasona ou a prednisona, s\u00e3o comummente utilizados para reduzir o edema cerebral, estas f\u00e1rmacos n\u00e3o atuam na elimina\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas tumorais mas ajudam no melhorar da condi\u00e7\u00e3o do doente (Nahaczewski, Fowler &amp; Hariharam, 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A neuroprotec\u00e7\u00e3o, como estrat\u00e9gia terap\u00eautica que tenta impedir ou atrasar a perda neuronal e por tanto a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, atrav\u00e9s do uso dos canabin\u00f3ides, pode tamb\u00e9m ser uma das formas de combate do tumor cerebral (Guzm\u00e1n, 2004). Estudos recentes indicam que os canabin\u00f3ides inibem o crescimento tumoral atrav\u00e9s de pelo menos dois mecanismos: inibi\u00e7\u00e3o direta da sobreviv\u00eancia e migra\u00e7\u00e3o vascular das c\u00e9lulas endoteliais vasculares, diminuindo a migra\u00e7\u00e3o e aumentando a apoptose; e inibi\u00e7\u00e3o do crescimento e migra\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas tumorais, diminuindo as factores pr\u00f3-angiog\u00e9nicos (i.e. factores de cria\u00e7\u00e3o de um novo suprimento vascular tumoral) e aumentando a apoptose. Estes dois mecanismos ir\u00e3o por conseguinte induzir o bloqueio do processo de angiog\u00e9nese e o crescimento tumoral (Guzm\u00e1n, 2004; Bl\u00e1squez et al., 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer das medidas de tratamento pode vir a gerar complica\u00e7\u00f5es pelo comprometimento de estruturas cerebrais complexas por potenciar dist\u00farbios som\u00e1ticos ou neuropsiqui\u00e1tricos (Liu et al., 2009). Podem tamb\u00e9m ser afectadas algumas fun\u00e7\u00f5es cognitivas como a mem\u00f3ria, intelig\u00eancia, aprendizagem, linguagem e aten\u00e7\u00e3o (Santos &amp; Vinagre, 2006).<\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o a neoplasia de localiza no lobo frontal a sintomatologia \u00e9 inicialmente silenciosa sendo frequente a exist\u00eancia de altera\u00e7\u00f5es de personalidade, d\u00e9fices no ju\u00edzo cr\u00edtico, abulia, anormalidades na marcha, incontin\u00eancia urin\u00e1ria e reflexos primitivos. Se pelo contr\u00e1rio, a neoplasia surge no lodo temporal existe a tend\u00eancia para o aparecimento de crises convulsivas, dist\u00farbios visuais e quadros de afasia (Agarwal et al., 2012; Louis et al., 2007; Ferro &amp; Pimentel, 2006). Os tumores parietais causam por norma perda sensitiva e perceptiva, anosognosia, hemiparesia e dist\u00farbios das capacidades visuo-espaciais. Se a massa tumoral se localiza no lobo occipital, existem por norma crises convulsivas visuais. Os tumores tal\u00e2micos causam por norma dist\u00farbios sensitivos contralaterais, altera\u00e7\u00f5es cognitivas e afasias. Tumores no tronco cerebral conduzem geralmente a dist\u00farbios nos nervos cranianos, solu\u00e7os, v\u00f3mitos e hemiparesia. \u00c9 essencialmente na reabilita\u00e7\u00e3o destas \u00e1reas que cabe ao psic\u00f3logo intervir (Domingues &amp; Calado, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A neuro-oncologia tem vindo nos \u00faltimos anos a sofrer avan\u00e7os surpreendentes, relativos tanto \u00e0s terap\u00eauticas utilizadas como ao aumento de uma resposta efectiva na melhoria da qualidade de vida dos sujeitos (Gil, 2007; Siksou, 2008; Rogers, Orav &amp; Black, 2001). Podem trabalhar-se aqui v\u00e1rios aspectos relacionados com os cuidados de suporte como o controlo da dor e dos sintomas e o ensino de estrat\u00e9gias para a minimiza\u00e7\u00e3o dos problemas emocionais (Butowski, Sneed &amp; Chang, 2006; Liu et al., 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente ao controlo da dor podem ser ensinadas pequenas estrat\u00e9gias que o paciente pode realizar em casa, uma dessas estrat\u00e9gias pode ser a exposi\u00e7\u00e3o a temperaturas extremas, como o calor e o frio. O calor aumenta o fluxo sangu\u00edneo e produz relaxamento muscular, aliviando a rigidez, os espasmos musculares e a inflama\u00e7\u00e3o localizada. A a\u00e7\u00e3o analg\u00e9sica do frio est\u00e1 relacionada com a diminui\u00e7\u00e3o do fluxo sangu\u00edneo e do edema, reduzindo a velocidade da condu\u00e7\u00e3o nervosa e provocando lentifica\u00e7\u00e3o na condu\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos nocicetivos (Lisboa &amp; Teixeira, 2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem outras formas de ensinar o paciente a lida melhor com a dor como as estrat\u00e9gias de automonitoriza\u00e7\u00e3o (Joyce-Moniz &amp; Barros, 2005; Ogden, 2004), estrat\u00e9gias de distrac\u00e7\u00e3o, exerc\u00edcios respirat\u00f3rios (Lisboa &amp; Teixeira, 2002; Ogden, 2004) e estrat\u00e9gias de relaxamento progressivo (Cheung, Molassiotis &amp; Chang, 2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devido \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e ao desfecho predominantemente tr\u00e1gico, o diagn\u00f3stico \u00e9 por norma recebido pelo paciente e pela fam\u00edlia como uma fonte de ang\u00fastia (Nobrega &amp; Pereira, 2011), despoletando em muitos pacientes alguns problemas emocionais associados que tendem a acrescentar mais sofrimento, influenciando a progress\u00e3o da doen\u00e7a e agravando ou perturbando o tratamento m\u00e9dico (Nobrega &amp; Pereira, 2011; Liu et al., 2009; Matos &amp; Pereira, 2005).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A incid\u00eancia de depress\u00e3o em pacientes com tumor cerebral \u00e9 bastante elevada (Rogers et al., 2001; Pelletier, Verhoef, Khatri &amp; Hagen, 2002; Scharfetter, 2005) sendo uma das psicopatologias mais frequentes em pacientes com neoplasia cerebral, em conjunto com a ansiedade (Santos, 2010). \u00c9 fundamental que o neuropsic\u00f3logo intervenha nestes processos psicopatol\u00f3gicos de forma a faciliar todo o processo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a e aos tratamentos (Liu et al., 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m do acompanhamento dos pacientes, qualquer programa de interven\u00e7\u00e3o deve incluir tamb\u00e9m algum apoio aos cuidadores sendo que estes tendem n\u00e3o s\u00f3 a cobrir todas as necessidades do doente como tamb\u00e9m a vivenciar em primeira linha todas as altera\u00e7\u00f5es cognitivas e personal\u00edsticas do paciente (Wideheim, Edvardsson, Pahlson &amp; Ahlstrom, 2002). Assim por norma as principais necessidades dos cuidadores s\u00e3o: informa\u00e7\u00e3o acerca dos sintomas, sobre o que esperar do progn\u00f3stico, informa\u00e7\u00e3o referente ao tratamento e efeitos secund\u00e1rios, informa\u00e7\u00e3o sobre meios para lidar com a diminui\u00e7\u00e3o de energia, informa\u00e7\u00e3o acerca das necessidades psicol\u00f3gicas e f\u00edsicas do doente, acerca das atividades que lhe ser\u00e3o ben\u00e9ficas ou n\u00e3o, e ainda informa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica relativa a quest\u00f5es de nutri\u00e7\u00e3o adequada, entre outras (Astudillo, Mendinueta &amp; Granja, 2008; Alarc\u00f3n &amp; Martin, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Asssim e dada a instabilidade e imprevisibilidade caracter\u00edstica da doen\u00e7a \u00e9 essencial que o paciente possa, se for do seu interesse, ser acompanhado ap\u00f3s a rescis\u00e3o m\u00e9dica, mesmo que as variantes envolventes indiquem um bom progn\u00f3stico, permitindo assim alguma monitoriza\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios processos envolventes ap\u00f3s a alta m\u00e9dica, podendo ser treinadas algumas estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o de reca\u00edda (Castro, 2001).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo a doen\u00e7a oncol\u00f3gica bastante prevalente na sociedade actual e a neoplasia cerebral uma das tipologias oncol\u00f3gicas com consequ\u00eancias mais gravosas para o individuo, revela-se fundamental um estudo mais aprofundado de todos os factores que integram esta condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e neuropsicol\u00f3gica (Cassidy et al., 2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, o papel do neuropsic\u00f3logo entra em enfase em qualquer fase do processo: na fase inicial desde o momento do aparecimento dos sintomas, passando por todo o processo de avalia\u00e7\u00e3o, defini\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico (Flowers, 2000; Mastrangelo et al., 2010; Agarwal et al., 2012; Louis et al., 2007); na fase de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a e de treino de estrat\u00e9gias para lidar com os processos emocionais adjacentes (Pelletier et al., 2002); na fase de ades\u00e3o aos tratamentos (Sino et al., 2007; Santos &amp; Vinagre, 2006), no ensino de estrat\u00e9gias para lidar com a dor (Lisboa &amp; Teixeira, 2002); na reabilita\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es afectadas pela doen\u00e7a e interven\u00e7\u00e3o nos processos psicopatol\u00f3gicos (Santos &amp; Vinagre, 2006; Domingues &amp; Calado, 2014); e at\u00e9 numa fase terminal de doente (Astudillo et al., 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim \u00e9 de especial realce toda a potencialidade do neuropsic\u00f3logo, como agente imperial na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, que compreendo todos os processos m\u00e9dicos, biol\u00f3gicos, neurol\u00f3gicos, faz uso da sua pr\u00e1tica profissional intervindo com o paciente na facilita\u00e7\u00e3o de todo o processo, dando-lhe a informa\u00e7\u00e3o que o mesmo procura, ensinando-lhe a lidar de forma mais adaptativa ao que lhe est\u00e1 a acontecer e ajudando-o a recuperar algumas fun\u00e7\u00f5es cerebrais que possam ter vindo a ser afectadas pela neoplasia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agarwal, V., Mally, R., Palande, A. &amp; Velho, V. (2012). Cerebral astroblastoma: a case report and review of literature. Asian Journal of Neurosurgery, 7(2), 98\u2013100.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alarc\u00f3n, W. &amp; Martin, A. (2011). Bases para mejorar la intervenci\u00f3n de los cuidadores en paliativos. Notas paliativas, 12, 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Astudillo, W., Mendinueta, <\/p>\n<p><!--nextpage--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">C. &amp; Granja, P. (2008). C\u00f3mo apoyar al cuidador de un enfermo en el final de la vida. Psicooncologia, 5(2-3), 359-381.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bl\u00e1zquez, C., Gonz\u00e1lez-Feria, L., \u00c1lvarez, L, Haro, A, Casanova, M. &amp; Guzm\u00e1n, M. (2003) Cannabinoids: potential anticancer agents. Nature Reviews Cancer, 3, 745\u2013755.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brainer-Lima, P., Brainer-Lima, A., Filho, H. &amp; Cukiert, A. (2002). Epilepsia parcial associada a tumores cerebrais prim\u00e1rios. Arquivos de Neuro-psiquiatria, 60(3), 797-800.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bunyaratavej, K., Siwanuwatn, R., Chantra, K. &amp; Khaoroptham S. (2010). Duration of symptoms in brain tumors: influencing factor and its value in predicting malignant tumors. Journal of the Medicine Association of Thailand, 93, 903-910.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Butowski, N., Sneed, P. &amp; Chang, S. (2006). Diagnosis and treatment of recurrent high-grade astrocytoma. Journal of Cl\u00ednical Oncology, 24(8), 1273\u20131280.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cassidy, J. Bisset, D. &amp; Spence, R. (2002). Oxford Handbook of Oncology. Oxford University Press.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Castro, D. (2001). Psicologia e \u00e9tica em cuidados paliativos. Psicologia: ci\u00eancia e profiss\u00e3o, 21(4), 44-51.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheung, Y., Molassiotis, A. &amp; Chang, A. (2002). The effect of progressive muscle relaxation training on anxiety and quality of life after stoma surgery in colorectal cancer patients. Psycho-oncology, 254-266.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Domingos, M. (1997). Altera\u00e7\u00f5es cognitivo\/operativas consequentes \u00e0s neoplasias do enc\u00e9falo: uma abordagem neuropsicol\u00f3gica. Psicologia \u2013 Teoria, Investiga\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica. Psicologia da Sa\u00fade, 2(2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Domingues, M. &amp; Calado, C. (2014). Impacto da reabilita\u00e7\u00e3o Neuropsicol\u00f3gica nas neoplasias encef\u00e1licas da crian\u00e7a: estudo de caso. Journal of Child and Adolescent Psychology, 5(1), 165-175.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ferro, J. &amp; Pimentel, J. (2006). Neurologia \u2013 princ\u00edpios, diagn\u00f3stico e tratamento. Porto: Lidel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Flowers, A. (2000). Brain tumors in the older person. Cancer Control, 7, 523-538.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Furnari, F., Fenton T., Bachoo, R., Mukasa, A., Stommel, J., Stegh, A., Hahn, W., Ligon, K., Louis, D., Brennan, C., Chin, L., DePinho, R. &amp; Cavenee, W. (2007). Malignant astrocytic glioma: genetics, biology and paths to treatment. Genes and Development, 21, 2683-2710.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gil, R. (2007). Neuropsicologia. Elsevier Espa\u00f1a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guzm\u00e1n M. (2004) Cannabinoids inhibit the vascular endothelial growth factor pathway in gliomas. Cancer Research, 64, 5617\u20135623<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joyce-Moniz, L. &amp; Barros, L. (2005). Psicologia da doen\u00e7a para cuidados de sa\u00fade: desenvolvimento e interven\u00e7\u00e3o. Porto: ASA Editores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lisboa, C. N. &amp; Teixeira, M. (2002) Cuidados paliativos oncol\u00f3gicos \u2013 controle da dor. Instituto Nacional de C\u00e2ncer, 6.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Liu, R., Page, M., Solheim, K., Fox, S. &amp; Chang, S. (2009). Quality of life in adults with brain tumors: current knowledge and future directions. Neuro-oncology, 330-339.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Louis, D., Ohgaki, H., Wiestler, O., Cavenee, W., Burger, P., Jouvet, A., Scheithauer B. &amp; Kleihues P. (2007) The WHO classification of tumors of the central nervous system. Acta Neuropathologica, 114(2), 97-109.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mastrangelo, S.; Lauriola, L.; Coccia, P.; Puma, N.; Massimi, L., &amp; Riccardi, R. (2010). Two cases of pediatric high-grade astroblastoma with different clinical behavior. Tumori, 96, 160-163.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Matos, P. &amp; Pereira, M. G. (2005). \u00c1reas de interven\u00e7\u00e3o na doen\u00e7a oncol\u00f3gica. Em Pereira, M. G. &amp; Lopes, C., O doente oncol\u00f3gico e a sua fam\u00edlia (pp. 15-25). 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